Ontem eu vi uma coisa que não sai da minha cabeça:
“Outra pessoa que conheço estava hospedada numa casa e foi abrir a porta da geladeira para beber um pouco de água.
E viu a coisa.
A coisa era branca, muito branca. E, sem cabeça, arfava. Como um pulmão. Assim: para baixo, para cima, para baixo, para cima. A pessoa fechou depressa a geladeira. E ali perto ficou, de coração batendo.
Depois veio saber do que se tratava. O dono da casa era perito em caça submarina. E pescara uma tartaruga. E lhe tirara o casco. E lhe cortara a cabeça. E pusera a coisa na geladeira para no dia seguinte cozinhá-la e comê-la.
Mas enquanto não era cozida, ela, sem cabeça, nua, arfava. Como um fole.”
Isso é de um livro de Clarice que comprei por acaso num sebo do Catete. Em casa, descobri um envelope de papel pardo colado na última folha. Cartão contendo datas como 25-02-85 / 25-03-85. Uma biblioteca o deteve até 1987. Este livro foi impresso em 1975 e esteve passando de mão em mão quando eu tinha 4 meses de idade. Eu era gordo nesta época e não sabia andar. Provavelmente ficava arfando que nem a tartagura, para cima, para baixo, para cima, para baixo, o dia inteiro no sofá.
Eu vou morrer e ”Visões do Esplendor” vai ficar.
A capa é um close sopapo na cara da Clarice, de olho fechado, como se ela tivesse apertado o botão depois de enfiar a cabeça numa máquina de copiar. Lembra o “Blue”, da Joni Mitchell. [ Janis Joplin -> Turtle Blues ]
Tags: Clarice Mitchell, Joni Lispector
26 / Julho / 2008 às 3:17 pm |
suspensivo esse começo de post.